domingo, 1 de dezembro de 2013

Quando nós não somos (apenas) vítimas.

Ou deveria amar você — sempre (fonte)

Quando eu descobri o feminismo, acreditei que feministas eram sempre pessoas corretas e coerentes. Não que eu acreditasse na perfeição, mas é que eu presumia que quando uma pessoa se dizia feminista, é porque ela já tinha desconstruído diversos preconceitos dentro de si e que se esforçava para viver segundo seus princípios. Eu acreditava que ser feminista era a mesma coisa que ser uma pessoa decente.
Eu estava tão, tão, tão, tão errada.

Ver situações completamente surreais de perceber feministas se recusando a perceberem transfobia ou racismo em seus argumentos, feministas perseguindo feministas de uma maneira totalmente insana, a própria contradição nas criticas, a negação de receber críticas pertinentes ao movimento e a constante sensação de que temos que estar em alerta - porque não nos sentimos seguras, mesmo dentro do movimento: isso é estranho, é bizarro e é horrível. Não tem nada mais horrível do que perceber que seu próprio movimento, do qual você faz parte, tem um milhão de problemas - tantos problemas que você chega a se questionar se gostaria de se identificar como feminista também, porque não quer estar associada à isso. Não mais.

Mas eu continuo sendo, porque feminismo não é sobre essas pessoas, mas é sobre uma ideia na qual eu acredito: a de empoderar mulheres diante da subjugação de gêneros, a de romper com os padrões que nos limitam à uma dicotomia binária de homem/mulher, a de subverter todas as noções de gênero que conhecemos. Eu acredito que é possível destruir o patriarcado, mas não acredito que é possível fazer isso e continuar mantendo diversas outras formas de opressão - e é por isso que acredito que é urgente o feminismo, como movimento, perceber que não pode agir sozinho. Mulheres não constituem a única classe oprimida do mundo. Mulheres não são apenas mulheres: elas também são ricas ou pobres, brancas, pardas ou negras, índigenas, asiáticas ou fazem parte de qualquer outra etnia e/ou raça que não conhecemos bem, heterossexuais ou homossexuais, bissexuais ou assexuais, possuem deficiências - e as próprias deficiências são numerosas, cada uma delas formando uma classe a parte.

Nenhuma pessoa é apenas uma característica, e o patriarcado não é o único mal do nosso mundo - e a nossa falha, enquanto feministas, é não perceber isso.

Nós não somos um movimento perfeito. Não somos perfeitas. Não vivemos em um vácuo. Nós nos contradizemos. Nós falamos merdas e não nos desculpamos depois. Nós não queremos ouvir críticas porque elas são dolorosas e porque são verdadeiras, e não queremos ser acusadas de não assumirmos nenhuma responsabilidade e, sim, é mais fácil para gente esquecer que o fato de sermos mulheres não nos isenta da responsabilidade perante outras minorias.

Talvez... nós nos acostumamos a nos considerarmos vítimas por tanto tempo que não queremos aceitar que há situações que não somos vítimas, mas algozes.

É difícil viver em um mundo que as coisas não são preto no branco, não é mesmo? Eu sei que é. Mas é o mundo em que vivemos: há os tons de cinza e enquanto mesmo o homem mais explorado terá a sua escrava em casa, e mesmo essa escrava exercerá seu poder quando expulsar a sua filha de casa porque ela lhe disse que não era mais João e sim Maria. Vê? Não é porque o homem proletário é explorado por ser mais pobre que deixa de oprimir sua esposa, e não é porque essa esposa é oprimida por ser mulher cis que deixa de oprimir sua filha por ser mulher transgênera. As opressões não se atenuam, não se anulam, não se minimizam, ao contrário: elas se acumulam cada vez mais. Nada é mais eficiente do que uma sociedade cuja estrutura permite que pessoas oprimidas possam oprimir outras, dependendo das circunstâncias - e é tão conveniente perceber apenas as situações nas quais somos as vítimas, mas ignorar aquelas em que somos os algozes, não é?

Não somos as vítimas no período integral do nosso tempo - e é fundamental percebermos isso.
Essa é a maior crítica que faço às feministas e eu odeio fazer essa crítica, mas acho importante: o nosso imenso egocentrismo de acharmos que tudo no mundo é sobre nós, de que somos a classe mais terrivelmente explorada, de que o nosso sofrimento é maior do que de qualquer outra classe explorada, de que somos tão exploradas que é impossível a nós explorar alguém e - o principal de tudo - que constituímos uma classe homogênea, onde vivenciamos as nossas opressões de modo mais ou menos parecido.

Como se ser uma mulher branca cis e hetero na França seja a mesma coisa que ser uma mulher negra lésbica e trans no Brasil.
Como se eu vivenciasse as dores de ser mulher do mesmo jeito que Carla Bruni.
Como se a CeCe vivenciasse a sua identidade de gênero feminina do mesmo jeito que eu.
Não dá.
Simplesmente... não dá.

"Oh, então isso significa que eu sou uma pessoa maligna porque sou hetero?"
Não.
"Ah, então quer dizer que ser uma mulher cis é um privilégio? Agora estupro corretivo e menores salários são privilégios?"
Não seja tão desonesta assim.

Deixe sua desonestidade para jogos de azar e variantes. Aqui, vamos ser pessoas legais e empáticas? Eu já ouvi que "daqui a pouco até ter buceta é transfobia" (alguma semelhança com "daqui a pouco ser hetero vai ser crime"? Um alô para a honestidade de vocês), já ouvi que mulheres trans são privilegiadas por não engravidarem, já ouvi que "não deveríamos criticar Lily Allen" porque o videoclipe fez mulheres negras se sentirem completamente desconfortáveis e objetificadas "porque ainda assim vídeos assim são importantes pro feminismo" e foda-se se ignoramos a questão racial, não é mesmo? Mas sabe de uma? Foda-se. Talvez eu esteja sendo cega; talvez eu esteja faltando com a sororidade; talvez eu esteja me recusando a entender vocês. Talvez eu esteja demonizando vocês.
Talvez.

Mas eu me pergunto como é que entramos nesse jogo de demonizarmos uma a outra. Como é que entramos nessa guerra em que nenhuma de nós vai vencer? Porque não haverá vencedores, no fim das contas, porque todas nós nos lascaremos na vida de algum jeito: seja nos matando por não suportamos carregar mais o peso de ser transgênera, seja assassinadas por ex-namorados com ciúmes doentios, seja levando tiros "acidentais" enquanto voltamos para nossas casas em bairros na periferia. Não há exatamente um destino feliz para quem conseguir vencer essas disputas dentro do nosso movimento, a diferença está apenas que algumas vão se foder (muito) mais e outras menos. No fim, todo mundo se fode (exceto os caras brancos heteros cis e ricos, ah, esses sempre estão vencendo na vida).

Eu preciso superar o meu constante desapontamento com o feminismo e entender que o fato de uma mulher ser feminista não significa que ela é uma pessoa da qual gostarei. E eu preciso lembrar dos meus princípios e eles são basicamente: eu quero fazer o que é certo e nada mais.

Não quero dar uma de hipócrita ou moralista, até porque é presunção demais supor que eu sou diferente de vocês, mais "íntegra" ou mais "honesta" ou qualquer coisa que valha. Assim como toda e qualquer pessoa, tenho minhas falhas e meus problemas, e digo/penso/faço coisas problemáticas. Não é um debate sobre a nossa integridade pessoal, não é sobre se estamos sendo corretas o tempo todo. Se trata sobre a nossa própria coerência e de respeitar os nossos princípios. É sobre se estamos conseguindo fazer conosco o que exigimos que outras pessoas façam, é sobre se sabemos ser humildes e reconhecer que não estamos certas o tempo todo e que erramos, e sobre saber pedir desculpas. Principalmente: saber pedir desculpas.

Então.

Não é exatamente um post original, inovador, nem estou falando nada de novo. Já disse isso milhões de vezes. Mas é necessário repetir isso milhões vezes milhões de vezes: nós precisamos reconhecer as nossas falhas. A nossa sororidade é seletiva, excluímos diversas categorias, fingimos que não podemos oprimir e usamos a nossa própria condição de oprimidas como desculpa para fingir que outras causas são menos importantes. E quando somos chamadas à atenção, nos recusamos a pedir desculpas. Dizemos que o problema não é com a gente. E fica tudo por isso mesmo.

Não deveria. Se somos o movimento acolhedor, seguro e aberto para as mulheres que afirmamos ser, não deveríamos fazer isso. Sabe aquela frase que não sei de quem é, mas que diz que a mudança começa em nós? Então.

Esse texto foi uma acusação? Eu não sei. Talvez. Se for, isso me incomoda? Não. Definitivamente não. Não é agradável para mim escrever esse tipo de texto, mas se eu não o fizer, sinto que passarei meus dias resmungando opiniões dadas pela metade, como se minha opinião fosse tão importante assim. Mas quem sou eu? Façam o feminismo de vocês. Façam como quiserem, porque não serei eu a ir direto no inbox de vocês e lembrar que tem coisa errada nessa equação. Vocês que sabem. Isso é só um blog e não é um blog de teoria feminista. Me perdoem se eu não sou tão acadêmica como deveria ser, se eu não estou aqui desenvolvendo nenhuma teoria social ou traduzindo feministas clássicas, me perdoem se tudo o que eu faço é escrever sobre as suas incoerências e, principalmente, me perdoem porque eu não dou a mínima para isso e continuarei fazendo isso enquanto continuar tendo disposição para tal coisa.

Se você leu até aqui e lembrou de determinadas situações que acontecia algo que eu me referi, bem, então você sabe o que eu quero dizer. Acredito que boa parte das pessoas que visitam meu blog já estiveram em uma situação que perceberam os diversos feminismos que existem e suas diferenças. Espero sinceramente que você pense com carinho nessas coisas que eu disse, e em todas as situações que você percebeu essas coisas, e pense em como é essencial que nós sejamos honestas quanto ao que acreditamos e seguimos. Isso não é sobre quem é a má e quem é a boazinha, mas sobre pessoas que estão se sentindo machucadas e pessoas que estão machucando e não querem perceber isso.

Isso não é sobre quem está errado e quem está certo. Não é sobre seu orgulho.
É sobre perceber porque que mulheres estão preferindo se preservar de outras mulheres autodenominadas feministas e então fazer algo a respeito. É sobre respeitar essas pessoas e entender que elas não estão se resguardando porque estão paranóicas, mas porque foram machucadas e então respeitar esses sentimentos. É sobre perceber o quão covarde é da nossa parte usar a nossa identidade feminina como escudo para fecharmos os olhos para outros tipos de privilégios e opressões, e o quão estúpido é ficar na defensiva e ridicularizar as pessoas quando elas nos criticam. Não estamos sendo tão legais assim, então o que vamos fazer a respeito?

É sobre isso: o que vamos fazer a respeito diante das críticas legítimas ao nosso movimento?
Apenas isso:
o que vamos fazer a respeito das nossas falhas enquanto movimento político e social?

fonte.