sexta-feira, 21 de junho de 2013

Porque eu não estou otimista

Tá dando merda.
Galera, vaza que tá dando merda. Bora vazar porque tá acontecendo coisas estranhas, notícias estranhas, coincidências estranhas, acontecimentos estranhos e eu tenho impressão que é um dejá vù de coisas que eu li em um livro de história.

Tá estranho, tá bizarro, tá esquisito e não tá legal isso aqui.

"Mas, Luna, não é lindo ver o povo protestando?"
É sim.
Mas protesto não é micareta, não é carnaval, não é festa na rua. E é isso que tá rolando. Uma festa super nacionalista com ares ufanísticos sem nenhuma pauta, se dizendo apartidária e sendo anti-partidária, e sendo deliberadamente fascista com diversos movimentos, incluindo partidos de extrema esquerda e movimento negro e LGBT.

1. Comissão regulamenta eleição em caso de vacância da Presidência.

No dia 06/06, os caras se reuniram e decidiram como seria a situação caso a dona Dilma acabe ou abandonando o cargo ou morrendo. Isso poderia ter sido decidido em QUALQUER dia. Nós temos 365 fuckings dias por ano nessa joça. Poderia ter sido decidido ano passado. Ano que vem. Mas não. No dia 06 saiu essa notícia. No dia 07, foi o primeiro protesto em SP. No dia 13, foi o dia que definitivamente marcou o começo da onda de protestos que dominou o país.

(não que SP seja pioneiro nisso. Natal, Goiânia, Porto Alegre já tinham protestos há bem mais tempo. E, bem, toda cidade tem a sua história de protestos estudantis e repressão toda vez que a tarifa aumenta)

2. Polícia Federal invade a sede da Federação Anarquista Gaúcha.

Não apenas invadiram, mas recolheram material, acusaram o grupo de "guerrilha" e prenderam uma das membras do grupo.

Mas estamos em uma democracia!
Espera.
Estamos?

3. EUA designa nova embaixadora para o Brasil.

Que, por um acaso absolutamente nada a ver, está envolvida em uma história maluca e confusa sobre o impeachment do ex-presidente de Paraguay, Fernando Lugo. Ela esteve diretamente envolvida, segundo o Wikileaks. Lugo considerou sua saída como um golpe democrático. [uma das fontes que achei]

4. Cara tem que fugir de linchamento por portar bandeira de partido. Fugir dos manifestantes.

OI FASCISMO
ESPERO QUE CÊ ESTEJA PASSANDO BEM
OK

(sim, você proibir que uma pessoa porte bandeiras de partidos políticos é autoritário, ditadorial e é fascismo sim. Mussolini e Hitler teriam orgulho de você.)

e aí a gente só tem um partido, o Partido Nacional de- não ESPERA

 5.  OI ILUSTRAÇÃO DA DITADURA MILITAR!

6. Bandeira do movimento negro queimada em SP

Pelos manifestantes.

7. Bandeira do movimento LGBT queimada em SP.

Pelos manifestantes.

8. Os tambores usados pela Marcha Mundial das Mulheres foram quebrados.

Pelos manifestantes.

9. Isso realmente aconteceu, pelo que vi em diversos relatos.

Sim. Os próprios manifestantes estão entregando os ~vândalos~ pra PM.
Sim. Os manifestantes estão colaborando com a PM.

Essa mesma PM que:

10. Emboscou manifestantes que estavam absolutamente pacíficos.

Duas pessoas morreram nessa brincadeirinha da PM de jogar bombinhas simpáticas e a porra toda.

11. Jogou bomba de gás lacrimogêneo na Quinta da Boa Vista. Na porra do parque. Num domingo. Com uma porrada de crianças.

12. E que tal o editorial que O Globo publicou no dia após o golpe militar de 1964? O primeiro parágrafo não poderia ser dito pelos nossos próprios manifestantes, tão sonhadores com um novo Brasil?

São apenas doze motivos. Isso porque nem publiquei todos os relatos e vídeos que vi nesses dias. Relatos de PM sendo abusiva, relatos dos manifestantes abusarem de garotas, relatos de tudo que é coisa - relatos de amigos e familiares que estão vendo com seus próprios olhos o que está acontecendo. Gente, por tudo que é sagrado, raciocina.

Por favor, raciocina.

Não me deixem estar certa não.
Por favor.
Não deixem.

pela razão de: um lado tá queimando bandeira do Brasil, tomando pau da PM e incomodando o governo. o outro lado tá queimando bandeira LGBT, querendo abraçar a PM e não incomodando ninguém.







terça-feira, 18 de junho de 2013

Explicando os protestos para seus pais :)

Congresso ocupado hoje - roubado do instagram de klassmannlucas

Eu sei que tem muita gente que não tá apoiando as manifestações. Eu entendo. Você tem o direito de concordar ou discordar do que você quiser - esse é um direito que conseguimos (não de graça: muita gente foi torturada e assassinada para que conseguíssemos ter o direito à livre expressão de pensamento). Eu entendo que você olhe para os ônibus queimados e para as notícias na TV e só veja facções brigando entre si e não entenda o por quê: não rola um abaixo-assinado? Um acordo? Uma conversinha simpática? Eu entendo que você ache que só tem vândalos - quando a TV só dá a entender isso, realmente - não tem como achar outra coisa.

Eu sei que tá difícil acreditar, mas olha só:
esse é um momento histórico. E se não for, bem, ele faz parte dos preparativos dos próximos eventos da nossa História - com H maiúsculo. Então eu realmente acho importante você compreender o que está acontecendo, como está acontecendo e de que forma isso pode afetar as nossas vidas. E eu acho importante você ter outra fonte de informação que não seja a TV Globo. :)

Estou escrevendo esse texto não para meus leitores habituais, mas para os pais e mães desses leitores. Porque eu sei que vocês estão preocupados. Eu sei que vocês estão com medo pelos seus filhos, e eu sei que vocês podem olhar com estranheza para toda essa história ocorrendo debaixo do seu nariz e não saber direito o que deve fazer. É compreensível - eu também ficaria com medo se eu fosse uma mãe. Mas é por isso que estou escrevendo isso aqui. Para mostrar a vocês o porquê desse momento ser tão importante - e pedir a você que reavalie suas opiniões sobre toda essa situação com carinho e cuidado.
 
isso somos nós vandalizando tudo :( - Rio de Janeiro • 17/06/2012
Parte I: "Mas esse vandalismo está desqualificando o movimento!!!"

De fato, existe vandalismo. Ninguém pode negar isso. É óbvio que existem pessoas que picharão ônibus e quebrarão vidraças em qualquer manifestação pública, seja ela uma greve, passeata, marcha, Carnaval, Micareta, etc. Pessoas em grupo tendem a se exceder. Mas aqui há três fatores que seria legal levar em conta e eles são:

1. O vandalismo por si só não é parte do movimento. Por quê? Porque ele é ínfimo - os manifestantes não são todos vândalos. A maioria esmagadora não está lá para vandalizar ou tumultuar. Em diversos relatos, os autores relatam que o vandalismo é desincentivado pelos próprios manifestantes. Não tem sentido você desqualificar todo o movimento por conta dos poucos casos de - real - vandalismo;
2. O vandalismo - mesmo existente - não deveria desqualificar o movimento. É só estender a lógica para um monte de coisas: há médicos imbecis que abusam dos seus pacientes. Você desqualifica toda a profissão médica por causa disso? Há professores tão cruéis e babacas que você tem pena do diabo quando eles morrerem - mas você ainda quer que professores sejam respeitados e valorizados, certo? Você sabe que os EUA tem uma excêntrica mania de se intrometerem nos conflitos internacionais e meterem bombas só por birra, mas você sabe que o povo americano é diferente do seu governo e que não é justo culpar todos os americanos pelos erros cometidos pelo governo, certo? Então por que você culpa todos os manifestantes e desqualifica suas causas - que dizem respeito a você também - por conta de uma minoria que simplesmente não faz parte dos manifestantes?
3. O vandalismo não está sendo feito "honestamente" - quer dizer: não são pessoas desocupadas, arruaceiras ou apenas manifestantes com muito ódio no coração. Tem vandalismo sendo feito pela própria PM. Você pode achar que é paranóia, mas não é:
Tem um vídeo mostrando um policial militar quebrando o vidro da própria viatura. Com que objetivo, se não incriminar os manifestantes?
→ Tem relatos de manifestantes comentando que há casos estranhos, como o do AERJ - no qual havia milhares de pessoas ao lado, pacificamente, e um grupo do nada bota fogo na AERJ. A viatura que sempre está lá não está mais. Outros relatos falam de provas plantadas e agentes infiltrados. Diante disso, como você pode diferenciar o vandalismo cometido por manifestantes, policiais ou apenas desocupados? Como pode julgar todo um movimento por algo que você nem sabe por quem está sendo feito?
 
Parte II: "Mas isso tudo por causa de vinte centavos?"

Você paga as contas da sua casa, certo? Você provavelmente paga a escola dos seus filhos, não é? Você sabe o quanto custa a luz, a água, o gás, aluguel ou IPTU, escola, alimentação, entre diversos gastos pessoais: afinal, seu filho precisa do uniforme, precisa do lápis de cor, precisa comprar papel. Você precisa de coisas também. Vocês precisam se transportar também - entra aí o valor da passagem do ônibus ou da gasolina. Então me diz: está bom pra você? Todos esses gastos que você tem, está bom? Está tudo direitinho? Sobra dinheiro? Ou você se choca invariavelmente quando percebe que tudo está ficando caro e seu salário não acompanha isso?

Você não se sente ultrajado quando percebe que você paga imposto em cima de imposto e não recebe nenhum retorno? Porque é verdade que pessoas pobres não pagam o Imposto de Renda, mas minha mãe também tem um monte de taxas descontadas para mil coisas do salário dela. Taxas que estão embutidas na comida, nas roupas, em absolutamente qualquer coisa que você consuma. Taxas que estão crescendo - e você não está recebendo o retorno delas. Você está pagando (caro) por educação e saúde, mas elas estão tão ruins que você prefere desembolsar mais uma pequena fortuna e pagar uma escola particular. Por um plano de saúde.

Mas me fala a verdade:
a escola não é tão boa assim, não é? O plano de saúde também. Está tudo uma merda. Pode falar a verdade: está.

Você está pagando duas vezes por serviços que não são nem sequer "bons": educação, saúde, transporte, segurança. Os vinte centavos são só a gota d'água disso. O transporte em SP é caótico, absurdo, confuso e caro. Você cobrar a mais por isso e não oferecer nenhuma melhoria é mais do que os cidadãos paulistanos poderiam aguentar. Aliás: a maioria brasileira passa pelos mesmos problemas do transporte: pagar caro por um sistema que devia ser público e decente. Aproveite para lembrar que já temos toda essa raiva pelas questões relacionadas à outros serviços.

Lembre que nós - não apenas nós, mas vocês, vocês que são nossos pais e viveram mais que a gente - aguentamos anos e anos vendo os índices de criminalidade subirem - a tal ponto que ser assaltado virou um evento rotineiro e morrer em um se tornou tão comum que não é mais manchete em jornal algum. Nós aguentamos não apenas pagar o dobro pela metade da qualidade, mas também presenciar políticos aumentando os próprios salários deliberadamente tantas vezes que já perdemos as contas de quanto eles recebem - e com o nosso dinheiro.

Sua vida está confortável? Se estiver, então beleza. Fique aí.
Mas a de muita gente não está. Nós passamos tempo demais acreditando que se estiver menos pior, então ok. Que dez centavos não era grande coisa. Que conseguimos aguentar mais um pouco, com o nosso infalível senso de humor de rir da nossa própria desgraça. Mas não dá.

Simplesmente não dá mais.

 
não sei a autoria da foto, só sei que é de SP
Parte III: "Ok, a PM se excedeu, mas esses manifestantes também!!!!"

Olha, deixa eu observar uma coisa:
De um lado você tem pessoas comuns, civis, revoltadas e angustiadas com a situação do país. E elas mal estão armadas - elas não portam facas ou armas de fogo. Elas provavelmente nem sabem onde é que se compra uma bomba de gás lacrimogêneo.
Do outro você tem policiais treinados, policiais que sabem atirar, policiais que estão bem equipados e protegidos, policiais que receberam uma única ordem: dispersar todos os manifestantes, custe o que custar, contanto que ninguém morra.

E então?

É de uma covardia tão, mas tão grande que não tem como se olhar para essa situação e dizer que os manifestantes estão sendo os capetas e vandalizando. Os policiais que sabem o que fazer em uma confusão, eles foram treinados para isso. Mas as pessoas civis não. Elas não sabem o que fazer quando alguém joga uma bomba na cara delas - nós não estamos preparados para isso. Nós não temos nenhum treinamento de guerra. Aquelas pessoas em São Paulo não sabiam o que fazer quando os PMs começaram a jogar bombas e atirar balas de borracha. É natural que elas reajam de formas diferentes - algumas fugirão e outras reagirão. Sim, sempre haverão as que queimarão lixo e farão barricadas para impedir a passagem da PM. Nessa situação, vocês os culparia com gás penetrando em seus orifícios, fazendo seus olhos e sua garganta arderem? Você os culparia por tentarem reagir com "paus e pedras" quando eles são atacados por tiros de borracha?

No Rio de Janeiro, PMs atiraram bombas de gás lacrimogêneo na Quinta da Boa Vista. Quem conhece algo de RJ sabe que o que mais tem lá nos domingos é criança. Inclusive, crianças foram afetadas pelas bombas - jogadas perto delas. Em São Paulo, a repórter estava ajudando pessoas perdidas quando foi baleada - no olho. Talvez ela perca a visão daquele olho para sempre. Jornalistas que estavam apenas cobrindo o evento foram baleados. Em Belo Horizonte, manifestantes - estudantes, nada mais que isso - foram cercados no campus da UFMG como se fossem bandidos.

A diferença de poder é desproporcional. Não é questão de quem está certo ou errado. É questão de que é como um filhote de gato te morder e então você retribuir chutando ele. Ora, o gato pode até ter te machucado e arranhado sua pele. Mas a força dele, fisicamente, não se compara com a sua, certo? Ele nunca vai conseguir te vencer em uma briga séria. A menos que todos nós estejamos armados com armas de balas de borracha e bombas de efeito moral e escudos, nós nunca conseguiremos nos equiparar aos PMs em termos de força física - só na quantidade.

A nossa única arma é a voz.
E talvez queimar lixos quando a situação ficar feia e precisar fugir.

Não estou querendo pincelar os manifestantes como vítimas coitadinhas. Não somos vítimas coitadinhas Maria do Bairro. O que estou falando é que há uma desigualdade de forças e é verdade. Todo mundo sabe disso. Por isso que a PM é temida - porque a força dela é maior que a da sociedade civil. Nós tememos a PM porque ela é mais forte que nós. E nós tememos os traficantes das facções criminosas, por exemplo, porque eles se equiparam à polícia em força e poder.
 
nunca esqueça para quem a mídia tradicional brasileira trabalha. e não é para nós.
Parte IV: "isso é tudo manipulação de internet, a TV disse outra coisa"

A Rede Globo, maior rede televisiva brasileira, tem uma história diretamente atrelada à História do Brasil. Isso não é invenção minha, está em todas as fontes históricas que você quiser comprovar. Ela está ligada, por exemplo, à ditadura militar, inclusive defendendo o regime. Ela não exibiu as Diretas Já (tenho certeza que você lembra desse movimento e deve ter apoiado) como deveria ter exibido, e está acostumada a manipular eleições eleitorais ao seu bel-prazer. A mais famosa e clássica, acredito eu, é a eleição entre Lula e Collor no qual simpaticamente recortou os piores momentos de Lula e os melhores de Collor no debate final, levando - no fim, - à eleição de Collor.

(não vamos nem lembrar do fim desastrado do governo de Collor)

Os jornais atendem à diretrizes. Isso é muito claro e qualquer um que conhece algo de jornalismo sabe disso. A Rede Globo tem uma diretriz X e ela vai dizer aos seus jornalistas pra trabalharem daquela maneira. A Band tem diretriz Y, a SBT Z e por aí vai. Não é questão da emissora ser "má" ou "boa". É questão de que cada uma tem os seus interesses e que ela vai lutar como der para conseguir ter seus interesses atendidos. Sabendo que a Rede Globo tem uma história intimamente ligada à uma política de direita e contra movimentos sociais (alô, defesa da ditadura militar?), então é óbvio pressupor que a emissora não irá se mostrar a favor dos movimentos atuais. Ela vai mudar cuidadosamente o foco da matéria - em vez de se focar na truculência policial, por exemplo, ela relatará o prejuízo do trânsito congestionado em milhões de reais. Veja bem, ela não é "má" - ela só está obedecendo à diretriz dela. Mas se você sabe que ela tem essa diretriz tão contrária aos movimentos para mudar nossa situação social - conhecendo a história da emissora - você não acha que é uma boa ideia procurar por outras fontes?

Eu sei que a internet é imensa e parece muito pouco confiável, provavelmente porque os relatos, vídeos e fotografias não tem nenhum selo de nenhum órgão oficial carimbado. Mas acredite: a internet é uma maravilhosa ferramente que as pessoas do mundo todo utilizam para comunicarem o que estão acontecendo em suas cidades. Você provavelmente não sabia que em Porto Alegre houve confronto com a PM, não é? Pois é, pessoas de lá postaram no Facebook, twittaram e fizeram o possível para noticiar ao mundo inteiro de que Porto Alegre, essa cidade que mal aparece nos jornais como palco de conflitos, estava tendo o maior quebra-quebra. Assim como as pessoas de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Salvador - e cidades do interior.

No dia que teve o protesto de São Paulo, eu vi pessoas que estiveram no protesto de SP comentando o que aconteceu. Elas não falaram o que "ouviram falar". Elas falaram o que elas viveram. Eu li sobre uma garota falando que não conseguia sair da Paulista e estava escondida no McDonald's com medo da PM. Eu vi outra falando que a PM explodiu uma bomba quando manifestantes não estavam fazendo nada, e ela fugiu para um bar, quase passando mal. E não são só relatos: hoje eu estava no protesto de Juiz de Fora que ocorreu tranquilamente e vi dezenas, centenas de pessoas filmarem e fotografarem absolutamente tudo, de todos os ângulos.

Uma emissora está te passando um único ângulo.
A internet te oferece inúmeros ângulos de milhares de pessoas - que estavam lá, que participaram do que ocorreu e - mais - elas não tem interesses econômicos em jogo. Elas são pessoas civis que não tem o que ganhar postando um vídeo mostrando PMs atirando em manifestantes desarmados.

Confie mais na internet. É óbvio que tem coisas mentirosas. É óbvio que tem gente que mente. Mas tem muita verdade também. Tem muita gente que só quer dizer o que está acontecendo, porque algo está acontecendo e as pessoas precisam ouvir isso. Então ouça a gente.

Ouça seus filhos - eles não estão sendo loucos ou ingênuos quando falam que "viu na internet que-". Eles estão recebendo histórias do país todo, em tempo real, histórias que nunca serão contadas no jornal. Eles estão recebendo histórias em primeira pessoa, por pessoas comuns, e eles estão preocupados e desesperados em tempo real - à medida que boatos se confirmam e fotos de tanques de guerra são distribuídas. Eles apenas estão tendo outras fontes de informação que não são um jornal que edita as notícias de milhões de pessoas para caberem em cinco minutos.
 
Parte V: "não vou deixar cê sair de casa!!!"

Eu entendo a sua preocupação. De verdade, eu penso em você com os músculos tensos e o peito rígido, a respiração difícil só de pensar em seu filho, seu precioso bebê, no meio de uma confusão dessas. Mas se tiver a chance de ter reação policial negativa e se seu filho tiver uma idade razoável, deixa. Sério mesmo.

Quando falo idade razoável, cabe a cada um de nós definir isso. Eu, pessoalmente, não deixaria uma filha minha com menos de 15 anos sair de casa para algo assim sem ir junto. Ficaria muito preocupada, porque a acharia muito nova para saber como reagir à uma possível truculência - e eu levaria uma filha minha de qualquer idade para qualquer manifesto pacífico. Mas é uma questão mais pessoal. Sobre os movimentos pacíficos (como o que ocorreu aqui em Juiz de Fora), por que eu acho que você deve não apenas permitir, mas também ir junto?

Porque é História. É a história do Brasil acontecendo e é você ajudando a escrevê-la. É algo que não volta atrás. É você reinvindicando seus direitos, como uma pessoa cidadã, uma pessoa de primeira classe. Acredite em mim: fazer parte de algo assim é fazer parte de algo magnífico. É uma sensação linda quando você percebe que algo está acontecendo e você está nela. Se você nunca foi, aproveite. Proteste sim. Vá pra rua. Vá pra rua quantas vezes for preciso, chame atenção, chame todos seus amigos pra irem juntos. É o seu país e é a sua sociedade, e todo mundo tem um papel nela - não um papel "pré-definido", mas todo mundo desempenha algum papel nela. Se você não lutar para que as mudanças aconteçam, como você pode esperar que as mudanças ocorram?

Se seu filho tem idade pra ir, quer ir no protesto e há risco de truculência policial, calma. Primeira coisa, sério, calma. Primeiro compreenda que nós sentimos essa necessidade de ir lá fora protestar, mesmo que tenha uma frente inteira de PMs com armas apontadas para nós. Às vezes você só tem ideia do quão forte você pode ser e o quão grande a sua ideologia pode ser quando tem uma resistência enorme diante disso. Permita seus filhos terem a oportunidade deles de fazerem história - permita à eles exercerem a própria cidadania, mesmo que o nosso próprio governo esteja nos proibindo disso. Permita à eles aprenderem o que é coragem e o que é princípio, o princípio que faz você voltar para as ruas protestar mesmo sabendo que pode receber um tiro. Eu sei que dá medo, que é desesperador, mas permita - e se você puder, vá junto. Para experimentar você também e para resistir também. Para ser mais uma pessoa que se recusa a ceder diante dos abusos do Estado. E também, por quê não?, para proteger sua prole em um caso extremo :)

Se você não puder ir junto e sabe que a PM pode reagir com violência, então cuide para que seu filho vá seguro. As roupas devem ser grossas e proteger todo o corpo, e ele deve portar pano com vinagre, e ter sempre água. Quanto mais proteção e cuidados ele tomar, menos ele sofrerá e mais poderá ajudar os outros.

Em suma, como pais e mães, mantenedores das famílias que vocês tem, não se permitam serem cegados pela preocupação e opiniões distorcidas que a mídia tradicional anda nos apresentando. Permitam-se terem outras visões e, mais, vejam seus filhos não apenas como seus bebês, mas como cidadãos que vocês criaram muito bem e que agora eles também querem lutar pelo que eles acham certo. E vá lutar com eles você também :)

vem pra rua você também!

sábado, 15 de junho de 2013

O Estado não nos serve.

Eu fiquei divagando sobre o que ia escrever o dia inteirinho. Mas eu só conseguia olhar para essa foto.
E percebi que, nesse momento, eu não preciso dizer mais nada porque essa foto já disse tudo. Porque nós éramos inofensivos quando estávamos no facebook reclamando da vida. Mas agora somos tão perigosos que precisamos pagar vinte mil reais de fiança se formos detidos - apenas por termos nos manifestado além do espaço que nos era permitido.

E eu acho é bom.
Acho bom que o Estado tenha ficado com tanto medo que tenha fixado a fiança dos manifestantes em vinte mil reais.
Acho bom que o Estado tenha ficado com tanto medo que tenha achado que precisa de um tanque de guerra para conter pessoas comuns.
Acho bom que o Estado perceba que as pessoas não estão mais dispostas a aceitarem os constantes abusos - alta carga tributária para péssimos serviços oferecidos, abuso de poder, escândalos de corrupção, desigualdade social gritante - e que não vão mais engolir o estereótipo do bom brasileiro cordial e pacífico. Você não pode lucrar em cima de uma população para sempre. Uma hora ela vai perceber que simplesmente não consegue mais aguentar.

Vocês acharam que vinte centavos era pouca coisa?
É nada. É praticamente nada diante de cinco séculos de uma história tortuosa. É só a gota d'água em um oceano de coisas erradas e absurdas sobre o nosso país - um oceano que ninguém quer que exista, mas continua existindo. É só a gota d'água - e é disso que vocês estão com medo. Vocês acharam que não iria transbordar se forçasse só um pouquinho. Pois bem, agora transbordou. Vão fazer o quê? Comprar mais um tanque de guerra? Renovar o estoque de spray de pimenta? Mandar os PMs começarem a usar balas de verdade? E então?

Vocês não podem conter uma massa furiosa e cansada dos seus abusos.
Simplesmente não podem, quando parece óbvio que para os excelentíssimos senhores políticos que governam nosso país que o patrimônio público como vidraças, ônibus, postes, muros e coisas do gênero são muito mais importantes do que a dignidade, honra e direitos civis e humanos dos nossos cidadãos. Então é natural que essas pessoas, essas mesmas que vocês acham aceitável cobrar impostos altíssimos e oferecer à elas serviços precários, se revoltem. E não sei vocês, mas eu nunca vi uma revolução feita com abraços e um pedido de "por favor, senhor Estado, pare de me oprimir". Porque o Estado não nos serve - e se ele não nos serve, então tudo o que temos que fazer é obrigá-los a nos servir. Um país com qualidade decente de vida é aquela que o Estado serve ao seu povo, não aquele que o povo serve ao Estado.

Então é isso.
Outro dia, com mais calma e um pouco menos fervor, eu escrevo melhor a respeito. Tudo o que posso dizer apenas é que estou tão, mas tão de acordo com todos esses protestos que só quero que eles continuem - e só parem quando tivermos um Estado que nos sirva. Talvez, só aí, teremos então a nossa eterna promessa do "país do futuro" realizada.

quinta-feira, 13 de junho de 2013

O dilema do Estado e o nosso direito ao nosso corpo.

para tudo.
amanhã, ou seja, dia 13 de junho, às dez e meia da manhã, Indianara vai ser julgada.
motivo: atentado ao pudor.
contexto: mostrou os peitos na Marcha das Vadias de RJ.
o nó da questão: Indianara é uma mulher trans. E o Estado não reconhece a identidade dela. Nos documentos civis, Indianara é um homem. Mas homens não são censurados em suas exibições de peitoral por aí na nossa sociedade.

dilema:
se Indianara for condenada, o Estado reconhecerá que ela é uma mulher - e vai abrir precedência jurídica para toda a galera trans que quer ser reconhecida com o gênero que tem há tempos, mas não tem saco pra ficar sendo julgada por um bando de médicos que só quer patologizar a coisa toda.
se Indianara não for condenada, o Estado afirmará que homens e mulheres não tem direitos iguais - o que fere o princípio básico da Constituição.

ou seja: o Estado tomou na cara e tem que dar um jeito nessa situação sem se estrepar muito. Porque de um lado vai ter que reconhecer a existência da galera transexual e aceitá-lo do jeitinho que são, com todo o amorzinho do mundo. De outro vai ter que falar pra todo mundo "olha, desculpa aí, mas mulheres não tem os mesmos direitos que os homens" e sofrer a ira eterna da gente - temos muita ira ainda pra sentir pelos aparelhos do Estado <3

sou sincera: gosto de ver essas coisas acontecendo e povo tomando na cara. gosto de imaginar a cara do policial que prendeu Indianara quando percebeu que Indianara era considerada homem e que, portanto, o julgamento dela iria ser problemático do ponto de vista do Estado. gosto de imaginar a cara do delegado dizendo "puta que pariu" quando se deu conta da situação. e quero muito que Indianara seja inocentada e que a tratem e a respeitem como uma mulher. ia achar um saco ela pegar cadeia por um motivo tão besta que é mostrar os peitos - grande merda. todo mundo tem seios e alguns são desenvolvidos, outros não. não é como se fosse obsceno.

Indianara pertence à duas categorias cujos corpos pertencem ao Estado/sociedade/qualquer merda que não é a gente: mulher e transexual.

Primeiro, como mulher, ela está sujeita à uma série de pressões que simplesmente não fazem sentido. Todas as mulheres sentem essa pressão - em menor ou maior grau, mas ela existe. Ela pode acontecer desde uma pressão social para emagrecer até uma censura pública porque cê é famosa e resolveu ir na praia tendo gordurinha. Se você é uma celebridade e tem celulite, prepare-se para ver fotos das suas pernas ampliadas 598412 vezes nas capas dos tablóides com manchetes amarelas afirmando o óbvio: que você, assim como metade da humanidade, tem celulite. Esses dias um cara resolveu postar uma foto de Britney Spears no grupo de Christina Aguilera no facebook super indignado e ofendido porque Britney não tinha depilado os pelos da virilha. Os pelos estavam claros e ele precisou dar zoom milhares de vezes, mas ainda assim se sentiu ofendido com a, pasmen!, constatação de que Britney Spears possui pelos. Como se você tivesse o direito de se ofender com o corpo de outra pessoa.

Porque você não tem.
Não.
Você não tem o direito de se ofender com a gordura do fulaninha.
Não tem direito de se ofender com a unha roída da sicraninha.
Muito menos tem direito de ficar patrulhando depilação alheia.
Simplesmente porque: você não tem esse direito. Aquele corpo é seu? Então.

(é a mesma coisa de você querer controlar a roupa, penteado, sapato alheio. NÃO DÁ. É óbvio que todos tem direito à uma opinião. É óbvio que você pode apenas pensar "poxa, não ficou legal essa blusa com essa saia". Mas ficar "MELDELZ QUE ABSURDO ELA NÃO DEPILA AS PERNAS SOS SUJA HORROROSA", porra, não, você não tem esse direito.)

O negócio é que existe uma divisão óbvia em cima do que mulheres e homens podem fazer com seus corpos. Não é paranóia minha. Você não vê tablóides desesperados com o peso de John Travolta, vê? Você não vê programas como o Fashion Police questionando as rugas de Paul McCartney. Simplesmente não acontece.

"mas, Luna, os caras tão cada vez mais vaidosos e valorizando isso-"

Não é a sociedade. É uma tendência e mais: é uma escolha. Se um cara não quiser, tudo bem. Ninguém vai falar pra ele que ele não vai arrumar uma garota se ele não cumprir os dez passos de como ser o mais bonito da festa. Eu não duvido nada que essa tendência cresça, porque é muito legal pro capitalismo criar necessidades que não existem para capitalizar em cima delas. Mas como uma tendência não se compara à uma crescente pressão histórica em cima da mulher, então não dá nem para comparar tamanha a diferença das forças em ação. Porque há uma diferença enorme quando vamos refletir sobre "pressões em cima do corpo" entre mulheres e homens que é uma:

~ o papel que ambos os gêneros devem desempenhar perante à sociedade. ~

Isso quer dizer: o corpo de uma mulher é, muitas vezes, tudo o que ela tem. Por séculos da nossa história ocidental, as mulheres foram subjugadas e forçadas a se manterem em um mundo no qual não tinham direito à voz. Isso significa que não podíamos votar ou sequer expressarmos nossas opiniões. Não era considerado que pudéssemos ser inteligentes. A mente feminina era considerada emocional, instável e desequilibrada, incapaz de executar um raciocínio claro e lógico. Isso significa que por séculos, fomos condenadas a ter apenas o nosso corpo como uma arma a ser considerada. Poderíamos enfeitá-los e decorar o lar do qual somos esposas e mães. Podemos decorá-los e sermos amantes e conseguirmos presentes caros que sustentam nossa vida. De qualquer maneira, a função de uma mulher acaba sendo atrelada à existência de um homem - ser esposa de um, ter um homem para ser mãe, ser amante de um. Então não podemos dizer que o corpo sempre foi propriedade nossa. Nunca foi - ele sempre tinha uma função que era ser bonito e decorar o ambiente. E sua função era validada por um homem.

Espera:

por que estou falando sempre "era"? como se tudo isso fosse passado? não é.

Veja só:
Por mais avanços que tenhamos conseguido, por mais que tenhamos conseguido ter mais cientistas e pensadoras mulheres, por mais que tenhamos conseguido diversos outros direitos e liberdades, ainda assim parece que o corpo feminino é meramente decorativo. Se você o usar em um protesto político, assim como Indianara o fez, será punida por atentado ao pudor - porque você não o usou para "embelezar" o ambiente e sim para reinvindicar algo que já é seu. Se você o usar amamentando um bebê em um espaço público, é capaz de pedirem para você sair por estar constrangendo outras pessoas - porque, sim, as pessoas acreditam que a função primária do seio é sexual, não a amamentação, e acham obsceno o ato de um bebê se alimentar do leite materno. O nosso corpo (feminino e cis) não pertence nem mesmo aos princípios básicos da natureza, como gerar vida: os médicos inventarão dificuldades para você ter um parto normal se assim o quiser, transformando a gravidez em uma doença, e então quando você tiver o filho, terá que cobrir seus seios ao amamentar - porque eles são sexuais e ofendem as pessoas com sua visão - e então as pessoas controlarão seu corpo e te acharão desleixada se você não pensar em perder os quilos ganhos com a gravidez.

E isso que nem falei do Estatuto do Nascituro que é de uma cretinice tão grande, mas TÃO grande, que tenho horror à ideia de pensar no dia que isso for aprovado. Porque sem condição.

Essa última parte, referente à gravidez, amamentação, etc., costuma ser o foco das mulheres cis (embora haja homens trans na causa, mas a causa não é tão popular por questões de invisibilidade política).

Indianara, porém, não tem seu corpo controlado apenas por ser mulher. Ela tem seu corpo controlado também por ser transexual. O fato de ela ter nascido com um pênis e dois testículos e a porra toda e o fato da identidade de gênero dela ser discordante do que lhe foi imposto lhe gera outros problemas: primeiro que a existência de alguém como ela é considerada uma doença. O Estado com seus aparatos médicos e jurídicos não tratam toda a situação como uma "identidade de gênero" que deve ser respeitada, mas como um "transtorno" que tem que ser tratado e será curado apenas com uma cirurgia de redesignação sexual. Indianara precisa de laudos assinados por psiquiatras e psicólogos e sabe-se quem mais para "provar" que é uma mulher.

Como cê prova que é mulher? Como cê prova que se sente qualquer identidade?

Então Indianara recebe um peso que não existe para as mulheres cis: ela é obrigada a se submeter às pressões já existentes para as cis, senão a identidade dela enquanto mulher é invalidade. Enquanto mulheres cis podem se rebelar e deixar de depilar as pernas (e ninguém vai achar que elas são "menos" mulher por isso), Indianara não pode. Ela tem que corresponder ao perfeito estereótipo de tudo que é feminino para que sua identidade seja validada. Mesmo que ela não goste de, por exemplo, saltos altos, ela terá que afirmar nas sessões médicas que gosta - senão não a acharão mulher o suficiente. Como se existisse um medidor do quão mulher você pode ser. Como se existisse mulheres de mentira e mulheres de verdade. Como se houvesse escala de mulherice.

Não existe.

E a maior crueldade é que Indianara está submetida à padrões tão binários e tão deterministas sobre o que é ser mulher e o que é ser homem e ela é julgada pelas próprias mulheres cis por isso. Porque enquanto de um lado não a consideram mulher o suficiente caso ela não corresponda perfeitamente à todas as imposições relativas ao corpo feminino, do outro a considerarão uma caricatura retirada dos anos 50. É um caminho sem saída do qual Indianara - e diversas outras mulheres trans - percorre. Não por escolha: ela nunca escolheu se sentir mulher. Você não escolhe o seu gênero. Você simplesmente não pode escolher a sua identidade como quem escolhe o que vai pegar de sobremesa do dia.

É sabido que o sistema oprime categorias diferentes, de diferentes formas. Há uma característica, porém, nessas opressões que eu considero especialmente perversa: a maneira como as próprias categorias podem se direcionar ao próprio sofrimento e oprimirem outras classes simultaneamente. Enquanto mulheres cissexuais sofrem com constantes pressões oriundas da ditadura da beleza e policiamentos constantes em relação ao aborto, por exemplo, também patrulham não apenas entre elas próprias, mas também as mulheres trans, debochando delas e considerando-se superiores por "serem mulheres de verdade". E pessoas transexuais são forçadas a se submeterem ao Estado em todas as suas esferas, inclusive jurídica e médica, e jogarem um maldito jogo no qual elas precisam pincelar a própria identidade com estereótipos baratos para conseguirem ser validadas pelo que são. É um jogo que ninguém ganha. É impossível. Estamos apenas colocando a corda no pescoço e chutando a cadeira embaixo de nós - é isso que você está fazendo quando oprime outra categoria. E quando oprime a si mesma.

O corpo de Indianara não pertence à ela. Ela foi presa por isso: o corpo feminino nunca pertenceu à mulher. O corpo feminino pertence ao Estado que determina onde e quando ele será obsceno ou adequado. Mas ela sendo considerada um homem pelo Estado, então poderia reinvindicar o corpo dela - mas não. Porque ela é uma mulher. Ela não vai fazer questão nenhuma de fugir da sentença se servindo dos seus documentos civis. O Estado será forçado a condená-la como mulher ou reconhecer a própria inaptidão em lidar com pessoas transexuais e suas diversas identidades.

Em suma: quem quer que seja o juiz ou a juiza vai ter que reconhecer, independente de qualquer coisa, que o corpo de Indianara foi reinvindicado por ela. Seja enquanto mulher ou pessoa transexual, Indianara exigiu o direito de usar o próprio corpo como bem quis entender - e tudo o que terão que decidir é se ela será punida por isso. E se sim, será punida como? Tendo a sua identidade negada e violada, sendo inocentada, ou tendo seus direitos ao próprio corpo negados, sendo condenada?

Aí está uma questão que espero ter a resposta amanhã.

sábado, 8 de junho de 2013

Porque o feminismo não é extremista e outras considerações

Vi uma garota comentando que por mais que concordasse com muitas das pautas feministas, não se afirmaria feminista porque não queria forçar um rótulo para si mesma. Porque não era adepta de extremismos. E então eu comecei a refletir sobre a opinião dela.

Primeiro, eu me perguntei algo bem básico: por que o feminismo é visto dessa maneira? Por que as pessoas mentalizam as feministas como mulheres que ficam vociferando o dia inteiro contra o patriarcado? Por que as pessoas se incomodam tanto com as nossas postagens diárias sobre cultura de estupro e violência doméstica? Por que as pessoas nos consideram extremistas e não querem ser associadas conosco? Por que, pergunto eu, as pessoas acreditam piamente que nós não temos humor, nem temos uma vida própria? Por que essa garota que não é uma garotinha de treze anos, mas praticamente uma mulher trabalhadora, que inclusive é a favor da liberdade sexual e direito ao aborto, por exemplo, não quer ser associada ao feminismo?

Eu acho importante que o próprio movimento se faça essas perguntas. Considero pertinente que se levante a questão de como somos vistas pela sociedade e qual é o real esclarecimento que as pessoas tem da gente. É óbvio que muito disso é má vontade. Existem milhares de blogs, sites e fontes sobre feminismo, suas correntes ideológicas, suas pautas, suas histórias, suas reivindicações. Temos militantes feministas que falam em tom mais suave e outras que berram suas lutas. Existe feminismo de tantas maneiras que alguém, que possui acesso à informação, afirmar que feminismo é algo "extremista" acaba sendo ignorante sim.

Mas ainda assim: é válido questionar se os outros - por outros, entenda-se todos que não compreendam o feminismo - estão recebendo a nossa mensagem direitinho.

O quanto da resistência contrária ao feminismo é má fé? O quanto é apenas ignorância? Como poderíamos nos ajudar?
Eu, particularmente, não faço ideia de qual é a ideologia das Femen. Sério. Não consigo ver um foco nos protestos delas.

I. O extremismo no feminismo.

Então pensei numa segunda coisa: a questão da garota em questão ter considerado o feminismo como algo extremista. Porém, a única coisa que me passou pela cabeça é que não há a menor possibilidade do feminismo ser um movimento extremista. A questão é muito simples: sendo o feminismo uma luta pela igualdade social e política dos gêneros e sendo que não é possível ser extremamente igual, então a partir do momento que o movimento passar a defender um peso maior para, digamos, o gênero "feminino", ele já se desviará do seu caminho e deixará de se tornar feminismo. Justamente porque abandonou sua premissa básica que é a igualdade.

Por isso que você não pode considerar mulheres que defendem que todos os homens tem que morrer e que a vagina é simplesmente melhor que um pênis como feministas. Elas estão ferindo o princípio básico da igualdade entre os gêneros. Você não pode olhar para as Femen com seu "sextremism" e seu logotipo ameaçador de dois testículos cortados e afirmar que elas são realmente feministas - porque elas estão indo para o extremo oposto da misoginia. Há muitas diferenças entre machismo/misoginia e misandria, convém ressaltar, e você nunca pode dizer que ambos tem o mesmo peso. Mas eu discutirei isso mais adiante.

Veja bem: eu não estou falando de posicionamentos individuais. Diversas mulheres (cis) tem trauma de homens por episódios de violência e preferem se isolar em seus clubes de luluzinha. Preferem ter apenas médicas mulheres, amigas mulheres, contatar apenas mulheres. Algumas até mesmo se servem de algo chamado "lesbianismo político" no qual se envolvem amorosamente e sexualmente apenas com outras mulheres (cis). Elas não estão erradas em adotarem essas posturas para as vidas pessoais delas. Se elas se sentem mais seguras e protegidas dessa maneira, então está tudo bem (no âmbito pessoal, lembremos. Porque há muitos problemas nessa ideologia ao que se refere às pessoas trans, por exemplo, o que não é razoável ignorar). Eu só não acho que seja uma postura a se adotar pelo movimento. Não podemos apenas fingir que homens (cis) não existem, fazer reuniões apenas entre nós e conspirar por uma sociedade que seja dominada integralmente por mulheres. Que não compremos os clichês sobre como um país seria melhor governado por mulheres, porque somos naturalmente mais sensatas e brandas.

(porque não somos. Somos pessoas e apenas isso, assim como homens.)

Então quando vamos pensar no feminismo como um movimento social e político, nós temos que lembrar do princípio básico: igualdade. Se esquecermos disso, deixa de ser feminismo. Se nós nos distrairmos e conversarmos sobre começar a dominar o mundo, vai deixar de ser feminismo. Temos que focar na igualdade - e os meios para obtê-la. Se existe um gênero que está sendo subjugado e oprimido, é nosso papel retirá-lo da opressão. Se as mulheres (cis e trans) sofrem constante violência de todos os lados, são objetificadas e oprimidas, e terrivelmente feridas em toda sua dignidade, então é obrigação nossa lutar para o equilíbrio entre os gêneros. As lutas podem e devem incluir leis especiais (como a Maria da Penha que foca na maior vítima da violência doméstica), direitos assegurados, empoderamento pessoal, etc. Todas essas medidas não servem para "privilegiar" mulheres, mas para que possamos nos igualar - politicamente e socialmente - ao gênero que costuma oprimir: o masculino.

Por isso é impossível o feminismo ser "extremista". Você não pode dizer que não apóia o feminismo afirmando que não gosta de extremismos - porque o feminismo não é extremista. Matar homens apenas por serem homens não é feminista. Berrar que é "sextremist" não é feminista. Considerar que o pênis é o grande mal da sociedade - e achar que seria um mundo melhor se todos os pênis fossem cortados - não apenas não é feminista, mas é extremamente violento não apenas com os homens cis, mas com as mulheres trans também.

Eu gostaria de acrescentar, então, um pensamento: talvez alguém se questione sobre se seria extremista valorizar mulheres. Valorizar o corpo tido como feminino. Valorizar a vagina, amá-la tanto e tê-la em alta importância - assim como as pessoas amam o pênis. Não, não é.

Não quero nunca que a nossa valorização enquanto mulher seja tida como algo extremista. Nós fomos consideradas tão erradas por tantos séculos que é essencial aprendermos a nos amar. Nossos corpos (enquanto mulheres cis) foram considerados errados e incompletos, e nossas mentes tidas como incompreensíveis. Nomes de mulheres foram apagados pela história, às vezes completamente, e mal temos exemplos de governantes, artistas, escritoras, cientistas que sejam considerados tão importantes quanto os homens que fizeram o mesmo. A mulher, historicamente falando, sempre foi subjugada - e é essencial que a gente se retire do nosso papel de vítima. Não somos vítimas. Somos sobreviventes.

O que considero extremismo não é a nossa valorização. Não é ter orgulho do que conseguirmos alcançar. O que considero extremismo é instituir - enquanto movimento social e político - uma política contrária aos homens. Uma política que veja todos os homens como inimigos em potencial e promova uma espécie de guerra de sexos. Eu não vejo o que poderíamos ganhar com isso - nós não vamos vencer em lugar nenhum considerando metade do mundo como inimigos que devemos exterminar.

II. O peso da misandria.

A outra parte é sobre a misandria x machismo/misoginia. Eu confesso, pessoalmente, que a misandria me incomoda em particular. Não a parte de instintivamente se proteger quando se vê em um ambiente repleto de homens - como eu mesma costumo fazer - mas a parte de dizer que "todos os garotos são burros" ou algo do gênero. Mas eu não posso julgar essas garotas que são contrárias ao gênero masculino (e aqui me refiro aos homens cis). Eu não posso julgá-las como erradas, porque embora elas estejam erradas racionalmente falando, ainda assim é uma maneira que elas encontraram de se proteger do mundo. É uma maneira de verbalizarem todo o ódio que sentem da sociedade patriarcal. Porque somos sujeitas à uma série de violências que só ocorre porque somos mulheres. Eu tenho certeza que elas tem pais e filhos e amigos que elas gostam muito do gênero masculino, mas você não pode apontar o dedo e dizer que elas estão sendo tão preconceituosas quanto os homens que verbalizam seu machismo.

Sabe por quê?

Porque é tão torto o equilíbrio entre ambos que não tem nem como afirmar que há justiça nesse argumento. A misandria não é sequer uma característica do feminismo, e sim um posicionamento individual de algumas garotas - que, por acaso, são feministas. É uma reação contra a opressão, baseada em sentimentos completamente compreensíveis de raiva e aversão. É uma generalização, sim, de milhões de homens - e eu compreendo totalmente que haja muitos homens decentes que nunca sequer chamariam uma mulher de vadia, por exemplo (e, curiosamente, os homens que eu encontrei que realmente respeitavam as mulheres eram os que menos se ofendiam com tais generalizações. Porque eles entendiam que não era algo pessoal, e sim uma generalização). Mas a misoginia não é um "comportamento particular". É uma instituição. O nosso Estado, a nossa mídia, praticamente todas as pessoas possuem conceitos de misoginia já gravados em sua mente desde a infância. Os programas de TV, os filmes, as leis, absolutamente tudo é feito já com a misoginia presente. Então quando um homem odeia todas as mulheres, ele não está indo contra a corrente. Na verdade, ele está exatamente seguindo a corrente - que mata mulheres todos os anos graças à leis estúpidas e inúmeros casos de violência.

Veja bem:
Quando uma garota chega e fala que "odeia todos os homens", ela não está reforçando nada. As pessoas já assumem que nem todos os homens são iguais e vivemos em uma sociedade que trata os homens como pessoas com diferentes gostos e idéias. A garota vai estar solitária.
Quando um homem chega e fala que "todas as mulheres são vadias", ele está concordando com os assassinos de mais de 5 mil mulheres que são mortas todos os anos sob o argumento de "defesa à honra". Eu não estou incluindo "violência doméstica", nem "estupro em guerras". Estou apenas falando do caso de "defesa à honra" que mata cinco mil mulheres sob o mesmo argumento de que "elas eram vadias e por isso mereceram morrer". Quando um homem afirma seu ódio às mulheres as julgando como "vadias", "interesseiras" ou quaisquer adjetivo desqualificador, não é original, não é uma reação contra a corrente. É apenas mais um pensamento que faz coro à uma sociedade assassina - e que permite que mais mulheres morram todos os anos.

Por isso que uma pessoa ser misândrica não é ser igual à uma pessoa ser misógina. É extremamente torto uma pessoa alegar que há igualdade entre ambos os comportamentos, porque nem mesmo no nosso ódio, somos iguais.
III. Porque eu acredito em homens feministas. Ou quase lá.

Eu sei que pessoas que fazem parte de uma classe opressora nunca, nunquinha saberão realmente como é fazer parte da classe oprimida. Mas eu também sei que a interseccionalidade nos permite vivenciar diversos tipos de opressão - e assim como Rowling diz no maravilhoso discurso dela para os formandos de Harvard, a imaginação faz com que a gente possa nos colocar no papel da pessoa oprimida por um tempo e refletir sobre os nossos privilégios. Eu, como uma pessoa cissexual, nunca saberei o que é ser uma pessoa transexual. Mas eu posso, exercitando a minha empatia, visualizar todos os meus privilégios enquanto cis. Bastou eu ler um ou dois posts pessoais de uma pessoa trans para eu perceber que eu sou privilegiada - enquanto cis - porque ninguém questiona a minha identidade de gênero, por exemplo. Eu não preciso de um laudo médico para justificar a minha existência.

Acredito que todas as pessoas possam desenvolver sua empatia - exceto psicopatas por motivos óbvios. Mas eu considero que a sociedade não incentiva isso. Ao contrário: enquanto eu segrego as pessoas para que eu possa dar um nome à quem sofre discriminação e violência e então visibilizar suas existências, a sociedade segrega as pessoas para que elas se sintam tão diferentes a ponto do senso de "ser vivo" se perder. Dar um exemplo mais concreto: as pessoas falam e pensam em gays não como pessoas, mas como criaturas abjetas. E se você vê uma classe dessa maneira, você pode machucá-la, feri-la, discriminá-la e matá-la. Você se torna mais insensível à experiência dela. Para você, aquela pessoa não é um ser vivo com uma história e uma personalidade, é apenas alguém "gay". Você a desumaniza - usando a palavra apenas porque o exemplo se refere à seres humanos, não à outras espécies de animais.

A sociedade faz isso o tempo todo. Não é possível sentirmos empatia por coisas. E então nós segregamos em diversas classes e transformamos essas classes em coisas. Coisas que podem ser violentadas, assassinadas e ignoradas o tempo todo.

Mas se você consegue sentir empatia, você pode conseguir visualizar outras opressões que não ocorrem com vocês. E eu acredito que homens são tão seres humanos quanto as mulheres, e que todos eles tem um cérebro borbulhante. Não acho que sejam uns seres tapados incapazes de pensar. Seria ofensivo pensar dessa maneira. Então eu acredito que os homens são capazes de perceber que existe misoginia e de treinarem a si mesmos para não perpetuarem a misoginia. Eu acho que um homem pode se dizer feminista, se ele for a favor da igualdade - e lutar para isso, em seu âmbito pessoal, inclusive. Aliás, eu acho importante que mais e mais homens utilizem a empatia e a lógica e percebam que serem feministas é o mais razoável a se fazer.

Ainda mais quando você pensa em algo importante: o machismo não afeta mulheres, mas homens também.

O machismo não existe apenas oprimindo as mulheres. Ele também oprime homens - de uma maneira muito, MUITO diferente - mas oprime. Porque quando uma sociedade machista faz uma linha divisória entre o gênero "feminino" e "masculino", atribuindo x personalidade e comportamento para cada um, criando caixinhas imaginárias, ele acaba por sufocar todo mundo. Podemos pensar assim: todos ficam dentro de caixinhas com as nossas classificações. As caixinhas onde ficam as mulheres, as pessoas trans (de forma geral), os homossexuais e bissexuais, os negros, etc, são muito mais apertadas e desconfortáveis. Mas os homens também estão em caixinhas. Elas são maiores e mais confortáveis, e mais altas para que eles achem que está tudo bem, mas quando eles querem sair do padrão de "masculinidade" (por exemplo, quando percebe que gosta de outros homens), então a caixinha se aperta - porque ele está saindo do padrão que a sociedade determinou e que todo mundo deve cumprir.

É muito mais difícil um homem perceber todo o machismo, obviamente, assim como é difícil para pessoas cis imaginarem os percalços que xs trans passam em suas vidas. Mas ser mais difícil não quer dizer que seja impossível.

A característica mais importante para um homem que percebe o machismo e resolve apoiar o feminismo, contudo, não é inteligência nem mesmo altruísmo ou generosidade. É a humildade. Ele deve estar ciente do seu papel e saber que ele nunca, jamais deve falar "mais alto" que uma mulher dentro do movimento feminista. Assim como eu, pessoa cis, jamais devo falar mais alto que uma pessoa trans. Você não pode falar por outra pessoa, porque não pode passar por suas histórias. E sendo você de uma classe privilegiada, então você realmente deve entender que o melhor a fazer é calar a boca e ouvir. Ouvir muito. E ajudar. E nunca perpetuar os preconceitos. E novamente ouvir. Ajude, sim, o movimento. Inclusive, como pessoa de fora, perceba como a mensagem está sendo transmitida e dê alguma opinião sobre como pessoas como você podem entender melhor a nossa mensagem. Mas não fale mais alto, não nos interrompa, não considere que sua opinião é mais importante que a nossa. É assustador, porque você se acostumou a ser ouvido em todo lugar. Mas é importante: se você não entender isso, então você não pode militar junto conosco. É impossível. Você não pode ditar a nossa pauta. 


Esse post foi relativamente extenso e em um tom mais sério e menos raivoso do que costumo usar. Não sei se fui pontual o suficiente, mas hoje não queria ser agressiva. Uma vez na vida, não queria ser agressiva porque realmente fiquei muito pensativa sobre tais conceitos - e porque sei que diversas feministas discordarão de mim. Não as considero erradas. Essa é apenas a minha opinião e é a maneira como tenho levado a minha vida com as minhas ideologias, e é a maneira como o feminismo funciona para mim. Não é o mesmo com todas - afinal o feminismo é um movimento plural. Se vocês discordarem de mim, por favor, comentem. Se quiserem acrescentar, idem. Eu peço isso à vocês, porque todo o raciocínio que apresentei nesse post não está, de modo algum, completo e finalizado. Não é um pensamento acabado. :)

Observação: Hailey tem um ótimo post sobre a diferença de peso entre "misandria" e misoginia, no site do Transfeminismo. Aconselho a leitura dele :)

domingo, 2 de junho de 2013

Fotografia: Steve McCurry

Sim, não sei do que falar.
(mentira, sei, é que não acho que cês me aguentariam reclamando de feminismo exclusivo/homens escrotos/sociedade escrota pela 48971ª vez)

Então, sim, eu optei por ser uma pessoa preguiçosa e compartilhar as fotografias de Steve McCurry. Ele é importante o suficiente para ter um artigo da Wikipedia relativamente grande ao seu respeito, mas tudo se resume à uma única coisa:

ele é fotógrafo da National Geographic.

Não, espera, falta mais uma informação importante:

ele que tirou aquela foto super clássica da menina afegã dos olhos estranhos que vão te devorar vivo. sim, ele. 

SENTE A POSE DE GALÃ!!

Então esse é o nível dele. É apenas um cara que nasceu em 1950 e trabalha em países como Afeganistão, Índia e lugares que não sei falar o nome, sempre colaborando para a publicação da National Geographic que é muito famosa por suas reportagens bem extensas sobre coisas como águas-vivas, terremotos na Turquia ou tráfico de animais, sempre ilustradas com fotografias realmente espetaculares. As fotografias de Steve McCurry são bem isso, e elas dão uma sensação enorme de que há um mundo inteiro lá fora vivendo. Quase faz a gente ter vergonha de termos uma vida tão confortável. Teve uma fase da minha vida que meu sonho era fazer jornalismo e quando eu queria dizer jornalismo, eu queria dizer National Geographic. Steve McCurry era tudo que eu queria ser: ir até os lugares onde a coisa, seja ela qual for, estivesse acontecendo, fotografá-la, documentá-la e saber que aquilo existia. E não apenas saber, mas viver. Eu acho isso muito corajoso - especialmente quando esses lugares envolvem zonas de guerra, com cadáveres espalhados pelo chão e um milhão de histórias de partir a alma de tão trágicas.

Ele retrata guerra e suas consequências nas fotografias, mas também o cotidiano de lugares que nunca sonhamos que existiam. Faz retratos e fotografa pequenos gestos, e detalhes que tomam uma importância colossal naquele contexto. E, de alguma forma, você se sente mais perto daquelas pessoas - mesmo que você durma em uma cama e tenha internet, e essas pessoas não saibam o que é viver com mais que um dólar por dia. É o tipo de trabalho que eu recomendo para o universo inteiro.

Eu selecionei aquelas que eu mais gostei, o que não quer dizer que não tenha gostado das outras. Não achei nenhuma foto ruim. Para ver todas elas, eis o site do cara com todas as fotos dele - separadas ou por categoria ou por lugares. 

Como são quilos de fotografias, então só clicar em ~continuar lendo~. Senão sobrecarrega tua página caso você tenha uma internet ruim ;)